quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

O Baile de Fim de Ano...

Há certos produtos que eu faço, que me dão trabalho! Processos demorados, complicados, para conseguir finalizar com um produto de boa qualidade. Durante estes anos que estou me empenhando em aprender a confecção de produtos perfumaria de antiquário, tenho apanhado bastante. E há um produto, na verdade o primeiro que eu criei, o sabonete de cinzas, que sempre me dá um baile, por isso, um deles se chama Cinderella. Há também o Casa Grande e o Oxé Dudu.
Desde o zero, o sabonete de cinza começa como na foto acima. Acendendo o fogão de lenha com as folhas da araucária, que pegam fogo loguinho e num instante acendem os galhos de jatobá. Escolho a lenha, sempre o que queima rápido por ser resinoso, vem na frente, como pinho, eucalipto, jatobá, quaresmeira. Depois as madeiras mais duras, que me dão uma cinza muito boa de potassa.
Você pode pensar, mas qualquer cinza não seria boa? Sim, pode acabar em sabão. Mas a minha vai virar sabonete...
Coleto a cinza com uma pá de metal e uma vassoura de capim, que eu também faço. Coloco gentilmente em meu caldeirãozinho de ferro, já todo sovado de cinza...
E trago para casa, para fazer a decoada. Percolo a cinza com água fervente, dela sai uma barrela escura, rica em sais minerais, principalmente hidróxido de potássio, a postassa cáustica, que vai reagir com os ácidos graxos das gorduras que eu selecionar e irá compor o sabonete.
No Casa Grande, uso soda cáustica, misturada com a potassa (faz tempo que não faço este sabonete lindo!). No Cinderella, somente uso soda, quando a minha barrela não ficou forte o suficiente para virar sabão, mas é raro. No Oxé Dudu, o combinado é não ter soda.
Muitos me pediram a receita. Eu já fiz até o passo a passo, mas francamente, é chato! Ninguém tem paciência de esperar cozinhando sabão durante dias a fio, às vezes semanas, para depois ficar curtindo meses e meses na forminha e depois secando para depois ser cortado.
Da fabricação à venda, o tempo é de 4 a 6 meses.
Primeiro ele vai para o tacho, para vaporizar a água, até estar em uma consistência leite condensado e vai então para o caldeirão. Desta panela de 5 litros, o rendimento aproximado será de uns 2 litros de sabão. o que dá uns 2,5 kg.
Ele encolhe bem!
Esta partida explodiu! Sim, a cinza contém enxofre, potássio, amônia, e enquanto o sabonete ferve, os ácidos graxos da gordura se separam da glicerina e BUM! Nitroglicerina, na parada!
Nesta hora, uma ligeira virada na colher e o sabão vira vulcão.
Aliás, sabonete de cinza é a maior razão de ter construído uma sabonetaria separada da casa! Estava cansada destas explosões vulcânicas dentro da perfumaria!!!
Não é à toa que São Floriano é protetor dos saboeiros e dos bombeiros! Viva!
Perigoso, né? E fede! Sim, são alguns dias de fedor de sabão de cinza invadindo a casa!
Outra razão para ficar lá fora!
Mas se é trabalhoso, complicado e perigoso, por que não paro de fazer sabonete de cinza? Porque o sabonete final é um produto incrível, que me vale o apelido carinhoso, de Xabru. As explosões são fenomenais (risada cavernosa)!!!
Depois que vai para a forma, ainda vai perder muita água. Você pode reparar, na foto acima, a marca inicial de nível do sabão, e quanto desceu. E vai descer ainda mais.
A água vai evaporando lentamente e o sabonete vai endurecendo. Sai para o corte como se fosse uma barra de doce de leite.
Na pele, seu efeito é suavemente esfoliante, rico em sais, equilibra o tônus da pele, deixa a pele super limpa, reduzindo as manchas, marcas de espinhas, pequenas cicatrizes. Tudo com toque de veludo.
Sempre tem alguém que diz:"Minha avó sempre fazia! Com a gordura usada da cozinha, com sebo, com banha de porco, com a cinza que estivesse no borralho e com lixívia de soda. Um sabão que era enrolado à mão e acondicionado em palhas de milho. Não tinha um cheiro nada agradável, mas era excelente para a pele!"
Mas minha barra de sabonete de cinza é feita com ceras, óleos, manteigas vegetais de primeira qualidade. Nesta última partida usei manteiga de ucuuba e murumuru, cera de abelha, óleo de dendê, coco babaçu, própolis. O toque aveludado e cremoso vem acompanhado de espuma rica e densa.
E o perfume! Para perfumar sabonete de cinza precisa ter experiência! Caso contrário vai gastar óleo essencial sem medida e continuará fedido.
"Ah! ensina o segredo?"
Não! Se explodir e você se queimar, a culpa será toda minha!
Assinado, Xabru!

domingo, 27 de dezembro de 2015

2015, um ano de muita atividade.

Neste ano que finda, viajei bastante. A primeira viagem do ano foi de lazer, para aprender, conversar, fazer contato, conseguir ingredientes. As outras todas foram a trabalho, dando oficina, conhecendo gente, ensinando o que aprendo e o que faço.
Foi um ano completo, que determinou o que será, daqui adiante. Com planos de trabalho, alguns desapontamentos, recompensas, alegrias, tristezas, ganhos, perdas, modificações, mudanças, revoluções e evoluções.
Apesar da alta nas moedas fortes do mundo, em comparação com o real, consegui não subir demais os preços, sem me prejudicar. Infelizmente, fica difícil acompanhar essas oscilações de moedas, quando a maioria do seu material de trabalho é importada.
O ano foi bom também no curso da Natural Perfume Academy, pois há uma turma determinada a estudar e produzir e isto, para mim é altamente compensador.
Além da perfumaria teórica, a prática foi intensa, também. Trabalhei bastante, embora pudesse ter trabalhado mais. A intenção é ativar a confecção de sabonetes, que ficou meio parada porque a confecção de perfumes foi maior, ocupando mais espaço do que a sabonetaria permitia. Agora foi ampliada. Vou ativar mais esta parte, também.
Durante o segundo semestre, traduzi um livro, que em breve divulgarei. Um trabalho bem legal, aprendi muito com ele. Ano que vem será o lançamento do livro, que tenho certeza fará muito sucesso em seu meio especializado, pois está muito bonito e é um livro muito bom. Muitas pessoas terão oportunidade de aprender com ele, também.
Agora, estou organizando a agenda para 2016 e já tenho um primeiro semestre bastante agitado!
Vou tentar ir atualizando tudo, por aqui, dando um resumo do que aconteceu.
Muito grata aos meus filhos queridos, ao companheiro, aos amigos do coração. Muito grata a 2015, por  tudo que consegui realizar.
A todos os leitores desta página, um grande abraço de Ano Novo e que reine a paz e o sucesso!

sábado, 6 de junho de 2015

PDD - Perfume do Dia: Ane Walsh Para Henrique Brito - Fleur de Canelle

PDD - Perfume do Dia: Ane Walsh Para Henrique Brito - Fleur de Canelle: Notas: Esprit de Rose Triple, Esprit de Fleur d'Orangeur, Esprit de Cassie, Esprit de Vanille, Canela, Amêndoas Amargas, Jasmim, Mimo...



Este foi típica perfumaria de antiquário.

Pensei em algo com feições antigas. Copiei uma fórmula de Septimus Piesse, meu velho amigo, e adaptei à canela, mas uma canela bem florida. Uns toques de leveza daqui, uma harmonia mais sintética ali, para combinar com o estilo do Henrique, uma inventividade acolá, para combinar com a imaginação picante que ele tem.

Ele diz que o perfume se parece com o Champs-Elisés, da Guerlain. Não duvido nada que esta casa famosa não tenha se inspirado também, nas ideias de Piesse...

Tenho faro!

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Jardim de Monet

Queria conhecer os jardins de Monet.
Ver de verdade essa ponte tão bonita que ele retratou e as nymphaeae, sim, em latim, porque parecem ninfas. Em português parecem feias e isso não são.
O Henrique me deu a tarefa de colocá-las em um quadro de Monet, cheio de reflexos d'água e plantas em flor, dentro de um frasco de perfume.
Usei o tom terroso úmido do mitti attar, para começar, e lírio do brejo, cuja essência vem do rizoma aquoso e aromático, ligeiramente especiado. Usei vetiver, porque é raiz e fica bem em qualquer lugar que precise de uma tonalidade terra. E lotus attar, lírio d'água (que é exatamente a nymphaea branca) e umas combinações secretas. Algumas gotinhas de iso E super em baixa concentração, sugerindo a ponte de madeira, feita pelo homem.
Usei gulhina para simbolizar o cheiro de terra molhada, narciso, para as margens do riacho.
E muitas outras essências secretas misturadas com cuidado, na medida certa.
Dos perfumes que fiz para o Henrique, é o que eu mais amo.
Monet buscava pintar as imagens refletidas na água, eu procurei refletir esse reflexo.
Dei o nome da família botânica a que pertencem essas lindas flores, que parecem ninfas das águas lênticas.
NYMPHAEACEAE.

Se quiser saber o que o Henrique falou, aqui está o link para o seu blog, PDD - Perfume do dia.

http://pddperfumedodia.blogspot.com.br/

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Shwarzwald...

Uma vez, fui para a Alemanha, de trem, para München. Passando por uma floresta escura eu vi uma família de corças. Aqueles lindos cervos com chifres retorcidos, não, eram as corças e os filhotes, em bando. Ficaram observando calmamente enquanto o trem passava e eu, chorando de emoção ao ver pela primeira e única vez aquelas criaturas tão lindas, que logo saíram pulando em um baile descontrolado, para dentro da floresta dos Irmãos Grimm. Era cedo, muito cedo, acho que no trem inteiro, a acordada era eu...
Também é dessa época tão longínqua, a lembrança da torta Floresta Negra supimpa que minha ex-sogra fazia.
Sim, era a autêntica, com cerejas no bolo nevado de chantilly...
Foi pensando nesta direção, que fiz o perfume do Rick.
A esta época, tinha acabado de sair um novo óleo essencial na Laszlo, de folha de pessegueiro. A minha avaliação do aroma, dizia: Intenso aroma de cerejas. Daria para compor um bolo!
Logo em seguida o Henrique me veio com essa ideia!!! Sincronicidade.

Leia a visão do compositor do brief em 

http://pddperfumedodia.blogspot.com.br/2015/06/ane-walsh-para-henrique-brito-floresta.html
 Estou ficando tão metida!!!

terça-feira, 2 de junho de 2015

PDD - Perfume do Dia: Ane Walsh para Henrique Brito - Mokka Lounge (aceita um cafezinho?)




 Ambiente de "lounge" de um piano-bar Costa Cafe, em Londres. Poltronas de couro, ambiente intimista, cafezinhos deliciosamente servidos com chocolates e biscoitinhos.

  Para compor Moka Lounge
Pensei em um ambiente parecido, talvez um pouco mais intimista, menor, menos iluminado, mas mais ou menos assim.
Mas o café do Costa me parecia pouco...
Queria um café fresquinho, torrado e moído em casa, servido com bolo de coco, no fim de uma tarde friorenta, perto do fogão de lenha. Não servia outro tipo. Aquele velho Moka, que cheirava tão bem!!!
Junto com estes elementos, compus um couro também diferente do feito com a velha combinação de bétula ou wintergreen e sim, usando paramela, fabiana e palo santo, para compor o que batizei de "couro argentino", pois os três ingredientes vem da Argentina.
O Henrique ficou satisfeito quando recebeu, mas agora o perfume maturou e ficou ainda melhor... AH! muito lindo!



PDD - Perfume do Dia: Ane Walsh para Henrique Brito - Mokka Lounge: Notas Mokka Lounge:  Paramela, fabiana, palo santo. tintura de labdanum, tintura de íris, sandalo mysore, buddha wood, zdravetz, massoia,...

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Papier d'arménie

O que acontece com um perfumista "'couture"' é engraçado. O tempo todo está criando, portanto é para quem gosta de criar em bastante quantidade. O tempo todo está com um brief diferente nas mãos, o que é excelente para gente turbinada. Há uma fila, portanto vc tem que fazer tudo bem rápido. A criação é como na indústria, atrelada ao brief, limitada pelo cliente e pelo tempo, regrada pela obediência. Você tem liberdade para usar sintéticos, isolados, naturais, o que bem o cliente entender. Você pode interferir nas ideias e dar muitos palpites mas a liberdade é condicional. Gosto de tudo isso. Aprendi fazendo poesia, que o verso branco pode ser lindo, mas existem trovas, haicais, sonetos, com suas rimas e métricas, regras que vc deve tentar obedecer, senão não tem técnica. E a técnica é bem importante!
Com isso, a experiência é bombástica, pois você faz muitíssimos perfumes sempre e sempre, aprende muito de teoria e prática e realmente coloca as mãos à obra.
Lembro-me, com certa nostalgia, do tempo em que ficava a me deter em uma criação, por meses, até concluir um perfuminho, que poderia ser legal ou não.
Agora, todos tem que ser bacanas, pois as minhas ideias contam mais, na hora de harmonizar, de confeccionar, de equilibrar a fórmula para concluir o perfume, cujo brief me foi passado pelo cliente, cujas notas foram escolhidas e desejadas pelo cliente.
Só eu sei o quanto cresci e me aperfeiçoei nesta atividade. Enquanto perfumista, minha técnica evoluiu exponencialmente.
Com as atividades nas oficinas e curso pela Natural Perfume Academy, meu tempo se reduz ainda mais. Então fico com muitos "ovos de perfume" estocados na cabeça, sem fazer, pois não há tempo e quando há tempo, há algo urgente que precisa ser feito, antes de compor os meus negócios.
Agora um armário novo para bagunçar a vida em prol da organização da minha tralha, urgente-urgentíssimo!!!
Afinal, não há tempo nem de fazer as criações antigas, tais como o sabonete de mel, os de perfumes raros, como oud, rosas, flor de laranjeira, jasmim, lótus... Agora, não está dando mais tempo nem de fazer aqueles mais comuns, como o de calamina, de índigo, de carvão...
Estou precisando de mais um par de mãos, de mais umas 24 horas em cada dia, para poder dar conta de todas as atividades e o que me dá mais vontade de fazer, nessas horas é queimar papier d'armenie e divagar num blog...
Obrigada, Amanda!