quarta-feira, 3 de junho de 2015

Shwarzwald...

Uma vez, fui para a Alemanha, de trem, para München. Passando por uma floresta escura eu vi uma família de corças. Aqueles lindos cervos com chifres retorcidos, não, eram as corças e os filhotes, em bando. Ficaram observando calmamente enquanto o trem passava e eu, chorando de emoção ao ver pela primeira e única vez aquelas criaturas tão lindas, que logo saíram pulando em um baile descontrolado, para dentro da floresta dos Irmãos Grimm. Era cedo, muito cedo, acho que no trem inteiro, a acordada era eu...
Também é dessa época tão longínqua, a lembrança da torta Floresta Negra supimpa que minha ex-sogra fazia.
Sim, era a autêntica, com cerejas no bolo nevado de chantilly...
Foi pensando nesta direção, que fiz o perfume do Rick.
A esta época, tinha acabado de sair um novo óleo essencial na Laszlo, de folha de pessegueiro. A minha avaliação do aroma, dizia: Intenso aroma de cerejas. Daria para compor um bolo!
Logo em seguida o Henrique me veio com essa ideia!!! Sincronicidade.

Leia a visão do compositor do brief em 

http://pddperfumedodia.blogspot.com.br/2015/06/ane-walsh-para-henrique-brito-floresta.html
 Estou ficando tão metida!!!

terça-feira, 2 de junho de 2015

PDD - Perfume do Dia: Ane Walsh para Henrique Brito - Mokka Lounge (aceita um cafezinho?)




 Ambiente de "lounge" de um piano-bar Costa Cafe, em Londres. Poltronas de couro, ambiente intimista, cafezinhos deliciosamente servidos com chocolates e biscoitinhos.

  Para compor Moka Lounge
Pensei em um ambiente parecido, talvez um pouco mais intimista, menor, menos iluminado, mas mais ou menos assim.
Mas o café do Costa me parecia pouco...
Queria um café fresquinho, torrado e moído em casa, servido com bolo de coco, no fim de uma tarde friorenta, perto do fogão de lenha. Não servia outro tipo. Aquele velho Moka, que cheirava tão bem!!!
Junto com estes elementos, compus um couro também diferente do feito com a velha combinação de bétula ou wintergreen e sim, usando paramela, fabiana e palo santo, para compor o que batizei de "couro argentino", pois os três ingredientes vem da Argentina.
O Henrique ficou satisfeito quando recebeu, mas agora o perfume maturou e ficou ainda melhor... AH! muito lindo!



PDD - Perfume do Dia: Ane Walsh para Henrique Brito - Mokka Lounge: Notas Mokka Lounge:  Paramela, fabiana, palo santo. tintura de labdanum, tintura de íris, sandalo mysore, buddha wood, zdravetz, massoia,...

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Papier d'arménie

O que acontece com um perfumista "'couture"' é engraçado. O tempo todo está criando, portanto é para quem gosta de criar em bastante quantidade. O tempo todo está com um brief diferente nas mãos, o que é excelente para gente turbinada. Há uma fila, portanto vc tem que fazer tudo bem rápido. A criação é como na indústria, atrelada ao brief, limitada pelo cliente e pelo tempo, regrada pela obediência. Você tem liberdade para usar sintéticos, isolados, naturais, o que bem o cliente entender. Você pode interferir nas ideias e dar muitos palpites mas a liberdade é condicional. Gosto de tudo isso. Aprendi fazendo poesia, que o verso branco pode ser lindo, mas existem trovas, haicais, sonetos, com suas rimas e métricas, regras que vc deve tentar obedecer, senão não tem técnica. E a técnica é bem importante!
Com isso, a experiência é bombástica, pois você faz muitíssimos perfumes sempre e sempre, aprende muito de teoria e prática e realmente coloca as mãos à obra.
Lembro-me, com certa nostalgia, do tempo em que ficava a me deter em uma criação, por meses, até concluir um perfuminho, que poderia ser legal ou não.
Agora, todos tem que ser bacanas, pois as minhas ideias contam mais, na hora de harmonizar, de confeccionar, de equilibrar a fórmula para concluir o perfume, cujo brief me foi passado pelo cliente, cujas notas foram escolhidas e desejadas pelo cliente.
Só eu sei o quanto cresci e me aperfeiçoei nesta atividade. Enquanto perfumista, minha técnica evoluiu exponencialmente.
Com as atividades nas oficinas e curso pela Natural Perfume Academy, meu tempo se reduz ainda mais. Então fico com muitos "ovos de perfume" estocados na cabeça, sem fazer, pois não há tempo e quando há tempo, há algo urgente que precisa ser feito, antes de compor os meus negócios.
Agora um armário novo para bagunçar a vida em prol da organização da minha tralha, urgente-urgentíssimo!!!
Afinal, não há tempo nem de fazer as criações antigas, tais como o sabonete de mel, os de perfumes raros, como oud, rosas, flor de laranjeira, jasmim, lótus... Agora, não está dando mais tempo nem de fazer aqueles mais comuns, como o de calamina, de índigo, de carvão...
Estou precisando de mais um par de mãos, de mais umas 24 horas em cada dia, para poder dar conta de todas as atividades e o que me dá mais vontade de fazer, nessas horas é queimar papier d'armenie e divagar num blog...
Obrigada, Amanda!

terça-feira, 19 de maio de 2015

Black Himalay


Black Himalay foi o perfume da vez!
Considero este perfume Noir uma grande criação.
A grande designer-perfumista Simone Shitirt, é o "nez" que eu precisava ter, como contraponto.
Com ela, minha conexão com o cliente se faz cada vez mais forte. Com nosso contato aprendi muito. Aprendi principalmente a me deixar de lado e somente casar muito bem o brief que ela me fornece. Com isso, os outros clientes lucram, pois nossa conexão fica mais fácil e forte, portanto maior é a probabilidade de nosso perfume dar certo.
Quando montamos um perfume, o cliente e eu, fazemos uma dupla musical, com canto e contra-canto, em harmonia bonita. Junto com os aromas, compomos uma sinfonia com uma orquestra aromática. O cliente entoa e eu sou o instrumento por onde passa seu sopro. Quanto maior a sincronicidade, melhor.
Com Simone, aprendi isso e a me soltar em suas melodias. Não me dá nenhum receio de criar - e ousar.
Buscamos juntas a luz e se eu for conduzida às regiões das trevas, vou sem medo de errar.
Leiam seu depoimento, em seu blog, "+ Que Perfume", sobre nosso trabalho conjunto, a sua criação em chiaroscuro, "Black Himalay".

http://maisqueperfume.blogspot.com.br/2015/05/black-himalay-edp-my-very-own-blend.html?spref=fb

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Propaganda enganosa? (3)

E por falar em sintéticos...
Na perfumaria industrial, compor um perfume não deve ser nada fácil. Imagine.
O perfumista recebe um brief. Nesse brief vem a ideia do perfume, a "molécula*" que ele vai ter que usar, quanto ele irá gastar, tempo determinado para apresentar um perfume, junto com mais 7 químicos. Dessas 8 amostras, é retirada uma, deixa-se uma na reserva e as outras 6 passam para o arquivo particular do perfumista que a compôs. Em cada 20 tentativas, é certo que o perfumista consiga em torno de 3 sucessos.
Com seu perfume eleito, irão perfumar um ambiente, uma linha de cosméticos, um sabonete, um produto de banho, um shampoo, um desinfetante, um sabão em pó.  Perfumista designer de perfumaria famosa, com vidros requintados e comercial na TV é a ave mais rara. Deve ter uns 250 no mundo e não tem lá muita liberdade para criar...
Quanto ao termo natural, então, a confusão é generalizada.
 O que é natural? Um aroma que veio da natureza ou parece ter vindo da natureza ou que imita a natureza.
Pois há os aromas dos óleos essenciais, que são produzidos a partir da própria planta; os idênticos ao natural, que são aromas montados a partir de compostos naturais (sintetizados no lab, mas que a natureza também produz ou isolados de outra fonte), imitando a composição do óleo essencial natural, e o sintético, que é um aroma que a natureza nunca produziu.
A indústria sempre irá preferir trabalhar com o sintético ou com o idêntico e não é só preço o diferencial. Há muito óleo essencial barato (laranja, limão, alecrim, capim-limão, lavanda, patchouli) e essência muito cara, como as ironas, os sandalores, geosmin, jasmone etc.
É que o óleo essencial da planta apresenta muita variação de partida para partida. Às vezes a procedência não é a mesma: a rosa búlgara é diferente da marroquina; o lavandim grosso da França é muito inferior ao da Patagônia; a tuberosa de Grasse é mais refinada que a indiana, a íris de Florença é a melhor do mundo.
Mesmo dentro da mesma procedência, há variação, pois um ano chove demais, o outro é mais seco, a variação no teor de água e luz, já irão fazer o óleo presente no vegetal ser de qualidade diferente, prevalecendo uma faceta ou outra.
Também há os problemas políticos, que influem, e muito: a guerra da Somália, faz com que o fornecimento de mirra vinda de lá fique precário. Rosa de Damasco????? O incentivo para o plantio de cana, no Brasil, derrubou e muito a produção de laranjas e cítricos, em geral.
Tudo isso sem falar no fator transporte, manipulação, processo de destilação, destilador usado, pressão de vapor, técnicas, etc.
O produto industrial não tem variação, portanto fica mais fácil se obter um perfume padronizado, com as moléculas* certinhas, com suas características mais uniformes, para vender em quantidades comerciais.
Além disso há o fator ecológico/econômico: Se a União Europeia quisesse produzir morango para o fabrico de flavorizante sabor/aroma morango. Não haveria território para que se plantasse mais nada. O flavorizante sabor/aroma morango é o de maior demanda no mundo inteiro e é usado desde o recheio do wafer até o shampoo, do iogurte ao chocolate recheado. Bate até a baunilha!!! O sintético é providencial, pois se formos aromatizar e flavorizar o mundo, com aromas óleos essenciais naturais, não há natureza que chegue.
Mas e aí? Deu para entender o que é natural?
Agora vou parar, senão não faço mais nada.

* Molécula, no caso, se refere à substância criada por outro perfumista, na indústria de essências, que agradou o perfumista de marketing (traduz o que o público demanda para o perfumista que irá confeccionar o perfume e vice versa). Molécula também é outro conceito esquisito, em perfumaria.

sábado, 9 de maio de 2015

Propaganda enganosa? (2)

E bergamota, então? Todos os gaúchos, catarinenses, paranaenses, acham que bergamota é mexerica, que é mandarina, em perfumês. Não é! Bergamota é outro cítrico, de sabor amargo/azedo. Sua casca tem aroma floral e não a pungência da mandarina. É menor, mais redondinha e seu aroma é melhor quando é a zest, com a casca ainda verdinha. Na Sicília, sul da Itália, Ásia Menor, Norte da África. 
É com o aroma da bergamota que se aromatiza o chá Earl Gray. Que delícia!
Adoro bergamota, não tenho nada contra a mandarina, mas é outra espécie, outra flor, outro fruto, outra coisa.
Aí vem o que se chama de nota. Que cacofonia!!! Nota pode ser um aroma, com que se compõe um bouquet. Um aroma que pertença a um acorde. Pode ser uma nota sintética, uma natural (o que não quer dizer que seja um óleo essencial de nenhum vegetal), ou seja, aroma de rosa, por exemplo, é natural, embora possa ser uma essência de rosa o aroma de que se fala. Pronto!!!! Que confusão.
Uma nota, então podemos chamar de aroma. um só, singular. Uma nota.
Vejamos uma pequena lista de notas naturais que não correspondem ao óleo essencial da planta.
morango, pêssego, maçã, melancia, abacaxi, cereja, frutas, em geral. Tudo sintetizado em laboratório. Mas naturais porque são aromas que imitam a natureza.
Oud.
Em perfumes comerciais, o oud é sempre o mesmo: sintético. Um oud mais seco, que imita o Assam Indiano. Mas cada oud natural tem uma característica própria. Talvez amadeirado, amargo, às vezes com acentos de cacau, amendoim, suor. Musgo, bolor, às vezes um fantasma, uma presença, um "ruh". Terroso, molhado, edáfico, canforado, medicinal, amendoado, florido, fecal, aéreo, aroma de curral, cada um é único. Não tem um oud só medicinal, com aquele cheiro de bandaid usado, que tem o sintético. É uma nota (olha a nota) rica e variada e não pode ser colocada em um só compartimento. Perfumaria natural tem suas nuances!
E assim vamos. Continua...

sábado, 2 de maio de 2015

Propaganda enganosa?

Não se iluda com nomes pomposos. Muitas vezes, a planta que desprende o aroma está ali do seu lado.
Há plantas brasileiras que estão presentes em muitos perfumes de casas finérrimas.
favas de cumaru ou tonka

A campeã disparada é a "fava tonka" (Dipteryx odorata), conhecida localmente como fava de cumaru. Dá tonalidade doce, compõe as notas carameladas.

Também do Norte, há "bois de rose" (Aniba rosaeodorata), o pau rosa, que de tanto ser extraído, acabou ficando ameaçado de extinção. Ainda bem que há na ilha de Silves, uma plantação sustentada, que é onde se obtém pau rosa Ecocert.
Mandarina (Ah! Cheirosa!) é mexirica (Uh! Fedida!).
Cilantro é a folha de coentro. Coentro é a semente.
Âmbar, então, tem de três tipos:
1- Âmbar fóssil.
Resina de coníferas fossilizadas desde o Carbonífero. As árvores cicatrizam suas feridas com seiva. Algumas seivas se transformam em resinas. A seiva das coníferas é abundante, translúcida e de cor ambarada, variando desde o marrom até o amarelo citrino. Costuma aprisionar os bichinhos que são atingidos pelo derramamento de seiva. Cola, de verdade. Com os milênios, aprisionada dentro da terra, essa resina se cristalizou em gemas de âmbar fóssil.
Esta resina muito pouco tem a ver com aroma, perfume e perfumaria. Alguns fizeram  a destilação do âmbar fóssil triturado e o aroma é bastante esquisito, de resina queimada. O âmbar é usado em joalheria artesanatos finos, como cabo de bengalas chiquérrimas, enfim, como artigo de luxo.
2- Ambargris - Poderoso fixador e nota de realce, em perfumaria. Trata-se do vômito e do cocô do cachalote. Endurecido e curtido, flutuando abaixo da linha d'água, no mar tomando sol e chuva, durante muito tempo, até encalhar em alguma praia.
 O cachalote se alimenta de lulas, que apresentam mandíbulas em forma de bico de papagaio,  que durante o processo de digestão, arranham as paredes do tubo digestório do cachalote. Esse bico então é envolto por sucos digestórios e restos alimentares, formando uma bola, que é eliminada em forma de vômito ou de fezes, tanto faz. O ambargris é aromático. Tem cheiro de mar, de perfume, de gordura e de cocô. Tudo ao mesmo tempo. Foi muito usado na indústria de perfumaria, mas devido a seu preço ser muito elevado e a indústria química conseguir sintetizar em laboratório bons substitutos para o ambargris, a perfumaria industrial do mundo todo usa ambares sintéticos.
3 - Acorde Âmbar, Base âmbar ou "Amber Antique" -  Procurando imitar o efeito e fixação do ambargris, muitos perfumistas compõem seu acorde âmbar. É um blend feito com benjoim, labdanum e baunilha em diferentes proporções (cada perfumista, que sempre vai querer dar um toque pessoal, mudando as proporções de cada elemento, colocando alguma nota  a mais na sua base âmbar). Então temos dois ingredientes naturais importantes na perfumaria que se chamam âmbar, fora as variações sintéticas desses mesmos ingredientes. Também existe a possibilidade de destilação do âmbar fóssil! Portanto, imaginem a confusão.

Vou continuar este assunto. Agora me cansei!