sábado, 6 de junho de 2015

PDD - Perfume do Dia: Ane Walsh Para Henrique Brito - Fleur de Canelle

PDD - Perfume do Dia: Ane Walsh Para Henrique Brito - Fleur de Canelle: Notas: Esprit de Rose Triple, Esprit de Fleur d'Orangeur, Esprit de Cassie, Esprit de Vanille, Canela, Amêndoas Amargas, Jasmim, Mimo...



Este foi típica perfumaria de antiquário.

Pensei em algo com feições antigas. Copiei uma fórmula de Septimus Piesse, meu velho amigo, e adaptei à canela, mas uma canela bem florida. Uns toques de leveza daqui, uma harmonia mais sintética ali, para combinar com o estilo do Henrique, uma inventividade acolá, para combinar com a imaginação picante que ele tem.

Ele diz que o perfume se parece com o Champs-Elisés, da Guerlain. Não duvido nada que esta casa famosa não tenha se inspirado também, nas ideias de Piesse...

Tenho faro!

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Jardim de Monet

Queria conhecer os jardins de Monet.
Ver de verdade essa ponte tão bonita que ele retratou e as nymphaeae, sim, em latim, porque parecem ninfas. Em português parecem feias e isso não são.
O Henrique me deu a tarefa de colocá-las em um quadro de Monet, cheio de reflexos d'água e plantas em flor, dentro de um frasco de perfume.
Usei o tom terroso úmido do mitti attar, para começar, e lírio do brejo, cuja essência vem do rizoma aquoso e aromático, ligeiramente especiado. Usei vetiver, porque é raiz e fica bem em qualquer lugar que precise de uma tonalidade terra. E lotus attar, lírio d'água (que é exatamente a nymphaea branca) e umas combinações secretas. Algumas gotinhas de iso E super em baixa concentração, sugerindo a ponte de madeira, feita pelo homem.
Usei gulhina para simbolizar o cheiro de terra molhada, narciso, para as margens do riacho.
E muitas outras essências secretas misturadas com cuidado, na medida certa.
Dos perfumes que fiz para o Henrique, é o que eu mais amo.
Monet buscava pintar as imagens refletidas na água, eu procurei refletir esse reflexo.
Dei o nome da família botânica a que pertencem essas lindas flores, que parecem ninfas das águas lênticas.
NYMPHAEACEAE.

Se quiser saber o que o Henrique falou, aqui está o link para o seu blog, PDD - Perfume do dia.

http://pddperfumedodia.blogspot.com.br/

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Shwarzwald...

Uma vez, fui para a Alemanha, de trem, para München. Passando por uma floresta escura eu vi uma família de corças. Aqueles lindos cervos com chifres retorcidos, não, eram as corças e os filhotes, em bando. Ficaram observando calmamente enquanto o trem passava e eu, chorando de emoção ao ver pela primeira e única vez aquelas criaturas tão lindas, que logo saíram pulando em um baile descontrolado, para dentro da floresta dos Irmãos Grimm. Era cedo, muito cedo, acho que no trem inteiro, a acordada era eu...
Também é dessa época tão longínqua, a lembrança da torta Floresta Negra supimpa que minha ex-sogra fazia.
Sim, era a autêntica, com cerejas no bolo nevado de chantilly...
Foi pensando nesta direção, que fiz o perfume do Rick.
A esta época, tinha acabado de sair um novo óleo essencial na Laszlo, de folha de pessegueiro. A minha avaliação do aroma, dizia: Intenso aroma de cerejas. Daria para compor um bolo!
Logo em seguida o Henrique me veio com essa ideia!!! Sincronicidade.

Leia a visão do compositor do brief em 

http://pddperfumedodia.blogspot.com.br/2015/06/ane-walsh-para-henrique-brito-floresta.html
 Estou ficando tão metida!!!

terça-feira, 2 de junho de 2015

PDD - Perfume do Dia: Ane Walsh para Henrique Brito - Mokka Lounge (aceita um cafezinho?)




 Ambiente de "lounge" de um piano-bar Costa Cafe, em Londres. Poltronas de couro, ambiente intimista, cafezinhos deliciosamente servidos com chocolates e biscoitinhos.

  Para compor Moka Lounge
Pensei em um ambiente parecido, talvez um pouco mais intimista, menor, menos iluminado, mas mais ou menos assim.
Mas o café do Costa me parecia pouco...
Queria um café fresquinho, torrado e moído em casa, servido com bolo de coco, no fim de uma tarde friorenta, perto do fogão de lenha. Não servia outro tipo. Aquele velho Moka, que cheirava tão bem!!!
Junto com estes elementos, compus um couro também diferente do feito com a velha combinação de bétula ou wintergreen e sim, usando paramela, fabiana e palo santo, para compor o que batizei de "couro argentino", pois os três ingredientes vem da Argentina.
O Henrique ficou satisfeito quando recebeu, mas agora o perfume maturou e ficou ainda melhor... AH! muito lindo!



PDD - Perfume do Dia: Ane Walsh para Henrique Brito - Mokka Lounge: Notas Mokka Lounge:  Paramela, fabiana, palo santo. tintura de labdanum, tintura de íris, sandalo mysore, buddha wood, zdravetz, massoia,...

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Papier d'arménie

O que acontece com um perfumista "'couture"' é engraçado. O tempo todo está criando, portanto é para quem gosta de criar em bastante quantidade. O tempo todo está com um brief diferente nas mãos, o que é excelente para gente turbinada. Há uma fila, portanto vc tem que fazer tudo bem rápido. A criação é como na indústria, atrelada ao brief, limitada pelo cliente e pelo tempo, regrada pela obediência. Você tem liberdade para usar sintéticos, isolados, naturais, o que bem o cliente entender. Você pode interferir nas ideias e dar muitos palpites mas a liberdade é condicional. Gosto de tudo isso. Aprendi fazendo poesia, que o verso branco pode ser lindo, mas existem trovas, haicais, sonetos, com suas rimas e métricas, regras que vc deve tentar obedecer, senão não tem técnica. E a técnica é bem importante!
Com isso, a experiência é bombástica, pois você faz muitíssimos perfumes sempre e sempre, aprende muito de teoria e prática e realmente coloca as mãos à obra.
Lembro-me, com certa nostalgia, do tempo em que ficava a me deter em uma criação, por meses, até concluir um perfuminho, que poderia ser legal ou não.
Agora, todos tem que ser bacanas, pois as minhas ideias contam mais, na hora de harmonizar, de confeccionar, de equilibrar a fórmula para concluir o perfume, cujo brief me foi passado pelo cliente, cujas notas foram escolhidas e desejadas pelo cliente.
Só eu sei o quanto cresci e me aperfeiçoei nesta atividade. Enquanto perfumista, minha técnica evoluiu exponencialmente.
Com as atividades nas oficinas e curso pela Natural Perfume Academy, meu tempo se reduz ainda mais. Então fico com muitos "ovos de perfume" estocados na cabeça, sem fazer, pois não há tempo e quando há tempo, há algo urgente que precisa ser feito, antes de compor os meus negócios.
Agora um armário novo para bagunçar a vida em prol da organização da minha tralha, urgente-urgentíssimo!!!
Afinal, não há tempo nem de fazer as criações antigas, tais como o sabonete de mel, os de perfumes raros, como oud, rosas, flor de laranjeira, jasmim, lótus... Agora, não está dando mais tempo nem de fazer aqueles mais comuns, como o de calamina, de índigo, de carvão...
Estou precisando de mais um par de mãos, de mais umas 24 horas em cada dia, para poder dar conta de todas as atividades e o que me dá mais vontade de fazer, nessas horas é queimar papier d'armenie e divagar num blog...
Obrigada, Amanda!

terça-feira, 19 de maio de 2015

Black Himalay


Black Himalay foi o perfume da vez!
Considero este perfume Noir uma grande criação.
A grande designer-perfumista Simone Shitirt, é o "nez" que eu precisava ter, como contraponto.
Com ela, minha conexão com o cliente se faz cada vez mais forte. Com nosso contato aprendi muito. Aprendi principalmente a me deixar de lado e somente casar muito bem o brief que ela me fornece. Com isso, os outros clientes lucram, pois nossa conexão fica mais fácil e forte, portanto maior é a probabilidade de nosso perfume dar certo.
Quando montamos um perfume, o cliente e eu, fazemos uma dupla musical, com canto e contra-canto, em harmonia bonita. Junto com os aromas, compomos uma sinfonia com uma orquestra aromática. O cliente entoa e eu sou o instrumento por onde passa seu sopro. Quanto maior a sincronicidade, melhor.
Com Simone, aprendi isso e a me soltar em suas melodias. Não me dá nenhum receio de criar - e ousar.
Buscamos juntas a luz e se eu for conduzida às regiões das trevas, vou sem medo de errar.
Leiam seu depoimento, em seu blog, "+ Que Perfume", sobre nosso trabalho conjunto, a sua criação em chiaroscuro, "Black Himalay".

http://maisqueperfume.blogspot.com.br/2015/05/black-himalay-edp-my-very-own-blend.html?spref=fb

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Propaganda enganosa? (3)

E por falar em sintéticos...
Na perfumaria industrial, compor um perfume não deve ser nada fácil. Imagine.
O perfumista recebe um brief. Nesse brief vem a ideia do perfume, a "molécula*" que ele vai ter que usar, quanto ele irá gastar, tempo determinado para apresentar um perfume, junto com mais 7 químicos. Dessas 8 amostras, é retirada uma, deixa-se uma na reserva e as outras 6 passam para o arquivo particular do perfumista que a compôs. Em cada 20 tentativas, é certo que o perfumista consiga em torno de 3 sucessos.
Com seu perfume eleito, irão perfumar um ambiente, uma linha de cosméticos, um sabonete, um produto de banho, um shampoo, um desinfetante, um sabão em pó.  Perfumista designer de perfumaria famosa, com vidros requintados e comercial na TV é a ave mais rara. Deve ter uns 250 no mundo e não tem lá muita liberdade para criar...
Quanto ao termo natural, então, a confusão é generalizada.
 O que é natural? Um aroma que veio da natureza ou parece ter vindo da natureza ou que imita a natureza.
Pois há os aromas dos óleos essenciais, que são produzidos a partir da própria planta; os idênticos ao natural, que são aromas montados a partir de compostos naturais (sintetizados no lab, mas que a natureza também produz ou isolados de outra fonte), imitando a composição do óleo essencial natural, e o sintético, que é um aroma que a natureza nunca produziu.
A indústria sempre irá preferir trabalhar com o sintético ou com o idêntico e não é só preço o diferencial. Há muito óleo essencial barato (laranja, limão, alecrim, capim-limão, lavanda, patchouli) e essência muito cara, como as ironas, os sandalores, geosmin, jasmone etc.
É que o óleo essencial da planta apresenta muita variação de partida para partida. Às vezes a procedência não é a mesma: a rosa búlgara é diferente da marroquina; o lavandim grosso da França é muito inferior ao da Patagônia; a tuberosa de Grasse é mais refinada que a indiana, a íris de Florença é a melhor do mundo.
Mesmo dentro da mesma procedência, há variação, pois um ano chove demais, o outro é mais seco, a variação no teor de água e luz, já irão fazer o óleo presente no vegetal ser de qualidade diferente, prevalecendo uma faceta ou outra.
Também há os problemas políticos, que influem, e muito: a guerra da Somália, faz com que o fornecimento de mirra vinda de lá fique precário. Rosa de Damasco????? O incentivo para o plantio de cana, no Brasil, derrubou e muito a produção de laranjas e cítricos, em geral.
Tudo isso sem falar no fator transporte, manipulação, processo de destilação, destilador usado, pressão de vapor, técnicas, etc.
O produto industrial não tem variação, portanto fica mais fácil se obter um perfume padronizado, com as moléculas* certinhas, com suas características mais uniformes, para vender em quantidades comerciais.
Além disso há o fator ecológico/econômico: Se a União Europeia quisesse produzir morango para o fabrico de flavorizante sabor/aroma morango. Não haveria território para que se plantasse mais nada. O flavorizante sabor/aroma morango é o de maior demanda no mundo inteiro e é usado desde o recheio do wafer até o shampoo, do iogurte ao chocolate recheado. Bate até a baunilha!!! O sintético é providencial, pois se formos aromatizar e flavorizar o mundo, com aromas óleos essenciais naturais, não há natureza que chegue.
Mas e aí? Deu para entender o que é natural?
Agora vou parar, senão não faço mais nada.

* Molécula, no caso, se refere à substância criada por outro perfumista, na indústria de essências, que agradou o perfumista de marketing (traduz o que o público demanda para o perfumista que irá confeccionar o perfume e vice versa). Molécula também é outro conceito esquisito, em perfumaria.